domingo, 22 de junho de 2008

"João Urso" - Breno Accioly

MERGULHO NO ÍNTIMO DA PSIQUE



João Urso é o primeiro e mais conhecido livro do escritor alagoano Breno Accioly, considerado um dos melhores contistas do Brasil. Publicado em 1944, essa coletânea de dez narrativas, aparentemente, traz na loucura uma unidade temática que se configura como um dos pontos mais atrativos da obra.

É aparentemente porque dizer que o tema de Breno Accioly é a loucura pode soar precipitado ou preconceituoso. Afinal, loucura para quem? Em que ponto de vista, em que concepção pode-se dizer que as mentes perturbadas de personagens como João Urso, Poni ou Coriolano pertencem a loucos? Eles assim o são apenas para o senso-comum. O autor imerge o seu leitor ao mundo particular de seus protagonistas, à realidade incompreendida por aqueles que os taxam de loucos e os excluem da convivência em sociedade. Conduz à participação da agonia instaurada, da luta que não é facilmente evidenciada no corpo, a não ser por alguns poucos estímulos ou confusas reações, pois o corpo não mostra o que realmente explode no âmago.

Seria mais justo dizer que o tema está na inusitada inconsciência, com seus impulsos, desejos, anseios; e é ainda nesse campo desconhecido da natureza humana que eclode a sensação de solidão, a intenção de vingança, as incertezas da morte e o encarceramento psíquico. Todas essas são características negativas que, ao se manifestarem fora da ficção, causariam repulsa e medo às pessoas comuns, mas não a Breno Accioly que, com muita sutileza, investe e experimenta cada um dos infinitos particulares que cria.

A presença da unidade referida é interessante por possibilitar a abordagem de vários aspectos dentro de um mesmo tema, mas vai além desse tema e atinge também a linguagem. As estruturas dos textos tendem a se manter. Em geral, o escritor é dono de contos que podem ser considerados longos, em média dez páginas cada. A terceira pessoa é constante, geralmente não são aqueles tipos perturbados que convidam o leitor a penetrar em suas fragilidades psíquicas ou emocionais, mas sim um narrador externo, uma voz onisciente que mostra o caminho, que fornece as evidências.

Outro dos recursos mais utilizados, e que funciona muito bem nos contos "João Urso", "As Agulhas", "As Três Toucas Brancas" e "Açougue", é o flashback. Praticamente todos os textos apresentam essa semelhante estrutura de construção narrativa, em que a personagem aparece em sua atual situação e parágrafos após passa a recordar alguns fatos para no final voltar ao ponto de início. É durante esse retorno a acontecimentos anteriores que se tem contato com as causas e os motivos que deixaram os protagonistas em seus estados atuais.

Intrigante é o fato de todas as personagens serem homens. Cada qual com suas histórias, porém com sintomas similares, como se aquele ponto vital comum a todo e qualquer ser humano, ao ser tocado, reagisse da mesma maneira, de forma instintiva. O que tanto incomoda o autor a ponto de ele insistir tanto nisso? Também seria precipitado afirmar que o que está escrito condiz, de certa forma, com a vida dele, pois sempre é perigoso relacionar diretamente criador e ficção. Mas como escrever com propriedade sobre aquilo que não se conhece? O contista apresenta uma desenvoltura muito grande ao descrever aqueles tipos, provavelmente há influências de sua profissão de médico, de sua infância no município de Santana do Ipanema - já que vários contos se passam nessa cidade -, ou até mesmo de algo que o tocava e que também o perturbava. Afinal, ele poderia ser uma de suas personagens, ou quem sabe todas. Muitas são as possibilidades dentro da Literatura, porém nada de exagero, por favor, nada de certezas ou dogmas. Falecido em 1966, Breno Accioly não está presente para confirmar nada.

Um ponto negativo da unidade temática e estrutural é justamente o risco de se tornar excessivamente repetitivo. Do meio para o fim do livro se tem a impressão de que sempre se fala da mesma coisa e do mesmo jeito, apenas mudando cenários e nomes - cada um mais incomum do que o outro, como Salustiano, Coriolano ou Sugismundo. É até comum escritores e poetas elegerem determinados assuntos como seus prediletos, mas Breno Accioly por diversas vezes anda pela fina fronteira da redundância, o que pode ser nocivo à sua obra. Contudo, no todo, o autor se sai muito bem e deixa um gosto de denso estudo em forma de arte literária sobre a psique humana, com o diferencial de ser pelo ponto de vista excluído.

João Urso é sobre seres que se perdem dentro de si mesmos, que não resistem à pressão do mundo. É um bloco de impacto, tanto em sua temática, quanto em sua linguagem peculiar. Afinal, nenhum escritor é obrigado a escrever de diferentes formas apenas para não repetir sua própria fórmula que, vista de um ângulo mais ameno, pode ser lido como o seu estilo. E que estilo!

(por Renato Medeiros)
(originalmente em
www.oslivrosquejali.blogger.com.br/)
(imagens retiradas do post original)

2 comentários:

José Luiz disse...

Otima iniciativa Nilton.
João Urso já está na minha lista para as próximas leituras, obrigado.
Abraço

Lívia Vasconcelos disse...

É um perigo a redundância...Dá medo da gente ficar cansado de ler e desistir...Já aconteceu comigo várias vezes.
Enfim, o renato se redimi no fim e me deu até uma vontade de ler só pra saber se o que ele fala está certo mesmo. Breno Accioly agradece, eu acho!

:}